No início do século XIX, uma jovem escritora britânica ousou transgredir os limites impostos pela sociedade e pelas crenças religiosas de sua época. Mary Shelley concebeu uma obra que viria a se tornar
um dos marcos da literatura mundial: “Frankenstein”, ou o “Prometeu Moderno”.
“O mundo era para mim um segredo que eu desejava decifrar. Entre as mais antigas sensações de que posso me lembrar estão a curiosidade, a pesquisa dedicada para aprender as leis ocultas da natureza e uma felicidade equivalente ao júbilo quando elas se revelam a mim.” — Frankenstein, de Mary Shelley.
Nesse romance, Shelley não apenas criou um conto de terror gótico, mas também lançou um olhar crítico sobre o poder da ciência, a ambição desmedida e as implicações éticas de desafiar as leis da criação. “Frankenstein” trata de temas como o poder da ciência, e as consequências da ambição humana, que podem ser interpretados como questionamentos à ideia de que a criação da vida é um ato divino exclusivo de Deus. O personagem de Victor Frankenstein levanta questões sobre o papel do ser humano em relação à divindade e aos limites éticos do conhecimento científico.
Shelley cresceu em um ambiente intelectual fervoroso. Filha de Mary Wollstonecraft, uma das primeiras defensoras dos direitos das mulheres, e de William Godwin, um filósofo político radical, ela foi exposta desde cedo a ideias revolucionárias. Quando, aos 18 anos, ela escreveu Frankenstein, a obra refletia não apenas sua imaginação vívida, mas também sua profunda preocupação com o potencial destrutivo da humanidade.
A história de Victor Frankenstein, o cientista que ousa criar vida a partir de matéria morta, é uma metáfora sobre a tentação de brincar de Deus. Ao dar vida ao “monstro”, Frankenstein não apenas transgredi as leis naturais, mas também desafia as noções tradicionais de moralidade e responsabilidade. A criatura, embora inicialmente inocente, é rejeitada pela sociedade e por seu próprio criador, tornando se um reflexo dos medos e preconceitos humanos.
Mas o que torna Mary Shelley uma figura verdadeiramente revolucionária é o modo como ela, uma jovem mulher em um mundo dominado por homens, utilizou sua obra para questionar as normas estabelecidas. Shelley não se contentou em ser uma mera observadora das mudanças científicas e sociais de sua época; ela participou ativamente desse debate, utilizando a ficção para explorar as consequências de ultrapassar os limites do conhecimento e da ética.
A Igreja Católica e outras instituições religiosas viam na obra de Shelley um alerta sombrio. O conceito de criar vida sem a intervenção divina era, para muitos, uma blasfêmia. A história de Frankenstein levantou questões profundas sobre o papel da ciência, a moralidade e a responsabilidade humana. A obra sugeria que a busca pelo conhecimento, sem consideração pelas consequências, poderia levar a uma catástrofe.
Ao desafiar as leis da criação, Mary Shelley não apenas moldou a literatura de sua época, mas também antecipou debates que continuam relevantes até hoje. Sua obra nos obriga a refletir sobre os limites éticos da ciência e o papel da humanidade na criação e destruição de vida.
Em uma época em que as fronteiras entre o natural e o artificial são cada vez mais tênues, as questões levantadas por Shelley ressoam com uma urgência renovada. Assim, Mary Shelley permanece como um ícone da literatura e do pensamento crítico, uma mulher que ousou desafiar as leis da criação e, ao fazê-lo, deixou um legado imortal.
Escrito por: Nathalia Orlando.Revisado por: Carol Niero.